Talvez eu seja mãe galinha… talvez já tenha passo um bocado com os meus filhos, principalmente com o meu Chiquinho a nível de hospitais. Pois o meu medo de os perder é constante.. Os meu filhos são a minha vida… e todos os dias agradeço a Deus. Por os ter perto de mim…
A dor de uma criança parte –me o coração.
Louvo a coragem de quem consegue suportar estas dores..
Eu esbarraria num pranto.. com uma dor destas… mesmo não sendo minha..
Sou fraca? Sim sou… mas humana principalmente.
Quando ás vezes digo.. que tenho medo de perder.. que sinto saudades.. que gosto de alguém.. essas pessoas acabam por banalizar… pois acho que não têm a noção do que é perder alguém…
Muitos banalizam o amor… o gostar.. o admirar.. e a maioria não sabe falar com o coração.
….."Posso afirmar que cresci e modifiquei-me com os dramas vivenciados pelos meus pacientes.
Não conhecemos nossa verdadeira dimensão até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes... de ir muito mais além.
Recordo-me com emoção do Hospital do Cancro de Pernambuco, onde dei os meus primeiros passos como profissional. Comecei a frequentar a enfermaria infantil e apaixonei-me pela oncopediatria. Vivenciei os dramas dos meus pacientes, crianças vítimas inocentes do cancro.
Com o nascimento da minha primeira filha, comecei acovardar-me ao ver o sofrimento das crianças.
Até o dia em que um anjo passou por mim!
O meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada por dois longos anos de tratamentos diversos, manipulações, injecções e todos os desconfortos trazidos pelos programas de quimios e radioterapias. Mas nunca vi o pequeno anjo fraquejar.
Vi-a chorar muitas vezes... Também vi medo em seus olhinhos... porém, isso é humano!
Um dia, cheguei ao hospital cedinho e encontrei o meu anjonho sozinha no quarto, e perguntei pela mãe...
A resposta que recebi, ainda hoje, não consigo contar sem vivenciar profunda emoção. Disse-me ela: "As vezes a minha mãe sai do quarto para chorar escondida nos corredores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade. Mas, eu não tenho medo de morrer...Eu não nasci para esta vida!"
Fiquei sem resposta, mas perguntei: - E o que morte representa para ti, minha querida?
" - Quando somos pequenos, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e, no outro dia, acordamos em nossa própria cama, não é?" (Lembrei das minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, com elas, eu procedia exactamente assim.)
- É isso mesmo.
"- Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar.
Vou acordar na casa dele, na minha vida verdadeira!"
Fiquei completamente sem saber o que dizer. Chocado com a maturidade com que o sofrimento acelerou, a visão e a espiritualidade daquela criança.
"- E minha mãe vai ficar com saudades terminou ela."
Emocionado, contendo uma lágrima, perguntei:
- E o que saudade significa para ti, minha querida?
- Saudade é o amor que fica!
Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição melhor, mais directa e simples para a palavra saudade: é o amor que fica!
O meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas, deixou-me uma grande lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores.
Quando a noite chega, se o céu está limpo e vejo uma estrela, chamo pelo "meu anjo", que brilha e resplandece no céu.
Imagino ser ela uma fulgurante estrela em sua nova e eterna casa. Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que me ensinaste, pela ajuda que me deste.
Que bom que existe saudade! O amor que ficou é eterno.
(Artigo do Dr. Rogério Brandão, Médico oncologista)
VALE A PENA PENSAR NISTO...
Só a mim me custa?
se sentimos saudade.. é porque importa.. é porque gostamos...